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The Crown e os machismos de cada dia

Antes de mais nada, quero me apresentar! Meu nome é Catarina Cicarelli, trabalho com relações públicas, mas uns bons aninhos atrás alguns de vocês podem ter lido textos meus no jornal Destak ou na Veja São Paulo. Tive a sorte de conhecer a Clara no trabalho, e desde então tenho grande admiração por essa pessoa linda que ela é. Agora, vou aproveitar as horas livres (que não são muitas! rs) e a minha enorme paixão por filmes e séries para dividir com vocês opiniões e pitacos sobre cultura pop.

Há cerca de duas semanas terminei a primeira temporada de The Crown, produção original da Netflix. Ela é, sem dúvida, uma série com produção primorosa, mas comecei a olhá-la por outra perspectiva só nos últimos dias, motivada por duas situações que há alguns anos eu ignoraria, mas que hoje me levam à loucura:

  1. Cheguei num restaurante com o meu marido e pedi a carta de vinhos. Apesar de EU ter pedido, o garçom entregou pra ele, que imediatamente me deu. Eu ignorei e pedi o vinho. Alguns minutos depois, volta o garçom com a garrafa, abre e enche a taça dele no já conhecido ritual de experimentar pra ver se está tudo ok com a bebida. Pra ele. Sendo que fui EU que pedi.
  2. Estou no meio daquela busca que às vezes parece infinita por um apartamento. Em uma das visitas, o corretor teimou em só olhar pro meu marido ao falar. O tempo todo, enfatizava que o local era o que “ele está procurando”. Depois de repetir isso mil vezes, eu falei o mais secamente possível que deveria ser o que “a gente está procurando”.

Ao primeiro olhar, são situações corriqueiras, certo? Mas só quem é mulher sabe o quanto dói ter que lidar com isso TODO SANTO DIA. Mesmo nas coisas mais bobas. E daí eu lembrei de The Crown.

Mais do que os dilemas de uma monarquia que precisa se manter relevante, ficaram marcados em mim os enormes desafios que Elizabeth II teve que passar para provar a si mesma em sua “carreira” de rainha. Sabendo do histórico da Inglaterra com dirigentes mulheres incríveis (vide a Elizabeth antecessora), me surpreendeu ver o como ela teve que penar para sequer ter sua voz ouvida em meio a tantos homens que se acham donos da razão. Ela, mesmo sendo a mulher mais importante do Reino Unido, era ainda assim apenas uma mulher.

Em muitos momentos eu fiquei agoniada ao ver a ótima Claire Foy, que interpreta Elizabeth em The Crown, se diminuir perante marido, políticos e até mesmo conselheiros. Afinal, ela é a rainha, né, gente. Mas, antes de ser rainha, ela é de fato mulher. E, como mulheres, somos treinadas para a submissão. Mesmo em cargos altos, devemos ouvir os conselhos de homens, para não parecermos arrogantes. No mundo corporativo a gente vê muito isso: se um homem fala o que pensa, ele é direto. Se uma mulher faz o mesmo, é grossa.

A figura de Elizabeth II sempre me passou um ar de “ultrapassado” – do tipo: “o que essa velhinha pode me ensinar?” Nessa belíssima primeira temporada de The Crown, já deu pra ver que a gente tem muito a aprender com ela sobre o mundo e sobre nós mesmas. Aos poucos, a protagonista vai pegando o espírito da coisa, e ao longo dos dez episódios nós vemos a jovem Lilibet se transformar em uma soberana que impõe respeito até em quem duvida de sua liderança.

Minha única esperança é que nem eu nem ninguém precise virar rainha para ganhar o mínimo de respeito que eu e todas as mulheres merecemos.

the crown gif série netflix

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2 Comentários

  • Responder Renata 29 de novembro de 2016 at 10:00 PM

    A série parece mesmo incrível e quero logo começar a assistir! E, a relação que você fez aqui no post não poderia ser mais imprescindível! É incrível como é necessário nos reafirmarmos dia após dia, em todos os mínimos detalhes. A primeira vista pode parecer algo pequeno, mas não é. É cansativo, exaustivo, na verdade e chateia muito. Ter que “brigar” por coisas tão simples a todo tempo!
    Adorei tua postagem! Conheci o blog há pouco e já vou acompanhar vocês!
    xoxo

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  • Responder Ludmila 10 de dezembro de 2016 at 6:52 PM

    Quero muito ver essa série! Parece linda e séries de época são as minhas preferidas.
    Fico pensando que deve ser ainda pior ser mulher num lugar de poder… Tanto julgamento, tanta pressão.

    Verei em breve 😀

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