CABELO E EMPODERAMENTO CABELO CRESPO CABELO CURTO
Inspirar, Sentir

Precisamos falar sobre a relação entre cabelo e empoderamento!

No começo desse ano, comecei a trabalhar como editora de beleza em um site só sobre cabelos. De lá para cá, leio, escrevo e pesquiso sobre cabelos todos os dias. Eu já sabia, é claro, da importância dos cabelos na nossa autoestima, no nosso processo de autoconhecimento, mas a dimensão dela ficou bem mais clara pra mim quando passei a trabalhar com isso. Cabelo e empoderamento, vejam bem, podem ser inseparáveis.

Infelizmente, como tudo nessa vida, também há um padrão de beleza para os fios. E o padrão, vocês bem sabem, é longo, liso e, de preferência, claro. Esses fios podem até ser modelados para ter ondas, mas são irrefutavelmente lisos. Bons exemplos são as ondas perfeitas e “naturais” de Gisele Bündchen ou os novos fios levemente ondulados de Taylor Swift.

Cabelo liso não é o único bonito. Cabelo longo não é mais feminino. Cabelo colorido não significa menos profissionalismo.

A pergunta que não quer calar é: se cabelo e empoderamento podem ser inseparáveis, em que casos isso se aplica?
Cabelo e empoderamento: existem vários tipos de beleza!

Yasmin, Catarina, Danielle, Nawira, Bruna, Deborah e Giovana.  | Foto: Bruno Rossener |

E eu diria que a resposta é: quando há uma fuga – totalmente voluntária ou não – do padrão. Cabelos coloridos, curtos, ondulados e, em maior escala, cacheados e crespos costumam levar mensagens, que podem ser de personalidade, luta, resistência ou estilo. Para conhecer algumas dessas mensagens – e quem as leva -, convidei algumas meninas que também acreditam nessa ligação entre cabelo e empoderamento para conversar sobre o tema. E também para exibir seus fios incríveis para o Declara pelas lentes de Bruno Rossener!

Todas elas, que escolheram – ou aceitaram ter – cabelos fora do padrão, já sofreram preconceito. Cada uma à sua forma e com diferentes intensidades, mas o julgamento é real.

cabelo e empoderamento

Cabelo e empoderamento: todas elas já sofreram preconceito em relação aos seus cabelos. | Foto: Bruno Rossener |

Bruna:As brincadeirinhas e o bullying eram relativamente frequentes, especialmente na escola, no ensino fundamental, que eu não tinha muita noção de como cuidar. Na verdade, não tive essa noção até me formar no ensino médio. Sempre falavam que eu tinha cabelo ruim (que vem, é claro, do racismo), e eu vivia com o meu cabelo preso.”

Deborah:Lido com preconceito em relação ao meu cabelo desde pequena, sempre foi algo diário e que se mostrou presente até mesmo na época em que o alisava para tentar me embranquecer. Claro que algumas situações me marcaram mais, como no dia em que uma senhora me abordou perguntando se crianças poderiam tocar meu cabelo e se ele não fazia mal à elas. Esse tipo de constrangimento vem frequentemente de desconhecidos no transporte público e na rua, por exemplo; mas pra mim é ainda pior vindo de amigos e familiares.

Danielle:Principalmente, quando é caso de trabalho para fotografia. Os fotógrafos e bookers sempre tem “preferência” para modelos de cabelos longos. No começo, até meus amigos me tratavam de um jeito diferente do normal.”

Yasmin:Diariamente escuto coisas como: “não tem pente em casa?” ; “é carnaval para estar de peruca?”; “eu conheço um salão muito bom”; “tomou choque?”

cabelo e empoderamento cabelo curto cabelo crespo

Cabelo e empoderamento: o vínculo é real. | Foto: Bruno Rossener |

Desde a mitologia, passando pela Bíblia e outras histórias, o cabelo aparece como uma representação concreta de coisas intangíveis. A força de Sansão, o poder de Medusa, a delicadeza de Rapunzel, a decisão de renunciar ao próprio cabelo de Mulan – ou dos monges franciscanos.

cabelo e empoderamento cabelo cacheado

“Parece bobagem para muitas pessoas e muita gente vê o cabelo cacheado e crespo como uma moda – mas nós que assumimos nossos cabelos sabemos que isso vai além de moda passageira, tem a ver com aceitação. Aceitar um cabelo que muitas pessoas achavam feio fez parte de me aceitar ao me olhar no espelho e de me fazer entender que eu não devo abaixar a cabeça e me anular para agradar os gostos dos outros.”

O vínculo entre cabelo e empoderamento, em mulheres jovens e de cabelos curtos, baseia-se muito no imaginário popular que cerca os cabelos femininos. O cabelo, em muitas culturas, representa a feminilidade, a sensualidade, a força e até mesmo a própria mente. Renunciar ao cabelo longo num país latino que ainda alimenta o estereótipo de mulher sensual com longos cabelos é uma escolha estética, mas não deixa de ser uma declaração. E ela pode ser a declaração de que a feminilidade vai além do comprimento de cabelo, pode ser a negação ao poder da preferência majoritária masculina, entre outras coisas mais.

Sobre as mensagens subentendidas que o cabelo curto deixa passar nesse contexto, Nawira se recorda de uma vez em que foi assediada no metrô. Após encoxá-la, um idiota deixou claro que “até que, para uma sapata, ela era bem gostosinha”. Nawira não tem dúvidas: ele entendeu que ela era lésbica apenas pelo seu comprimento de cabelo. Nesse caso, há o fator lesbofobia, mas o pré-julgamento pelos fios curtos também é claro.

[Leia também: Não tenho medo de morar sozinha!]

Para as donas de cabelos cacheados e crespos, a conexão entre cabelo e empoderamento chega a ser ainda mais íntima. Ao contrário das meninas que decidem cortar os fios, a decisão das cacheadas e crespas é outra: aceitar os cabelos – e, em outro nível, elas mesmas – como são. 

cabelo e empoderamento cabelo crespo

“Ainda que meu black esteja castanho ou o mais “comportado” possível, as pessoas o repudiarão.”

Deborah lembra que sempre teve muita vontade de variar nos penteados e nas cores de cabelo, “mas essa vontade se contradizia à ideia de que cabelo loiro ou colorido não combinaria comigo, tanto pela minha cor de pele como por meu tipo de cabelo.” Essa ideia perdurou até entender que, ainda que o black esteja castanho ou o mais “comportado” possível, as pessoas ainda o repudiarão. Ela analisa: assumir meu cabelo natural e me dar conta de como a sociedade o vê foram os primeiros passos para meu processo de entendimento da minha posição social enquanto mulher e negra.  Assim, minha transição foi de algo puramente estético para uma autoafirmação em uma sociedade que sequer suporta minha estética.

“Acho que passei a amar meu cabelo quando comecei a me aceitar de verdade. Me aceitar foi (e continua sendo) um processo longo e complicado, afinal todos temos nossas inseguranças que infelizmente são reforçadas pela sociedade. Mas aceitar quem você é ajuda muito.”

A caminhada em busca do empoderamento pessoal é longa, difícil e cheia de comentários e olhares tortos a cada esquina. Mas as entrevistadas são unânimes: vale a pena. Leia mais sobre o assunto aqui. 

Você concorda com a associação entre cabelo e empoderamento? Tem alguma história sobre o tema? Deixe sua opinião ou conte a sua história sobre cabelo e empoderamento nos comentários! ☀

Gostou? Clique aqui para mais posts da categoria “Sentir” do Blog Declara. 


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9 Comentários

  • Responder Luiza M 18 de outubro de 2016 at 5:47 PM

    Eu olhei para esses cabelos maravilhosos das fotos e não consegui entender como alguém pôde julgá-los! Amei, beijoos

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  • Responder Kamii 18 de outubro de 2016 at 5:49 PM

    Amei o texto, principalmente eu amar tanto arriscar um colorido mas saber como é mal visto pelo mercado de trabalho, é muito triste eu ter que tirar pra procurar estágio porque é muito triste a cor do meu cabelo me limitar!
    Beijinhos :*

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  • Responder Giovana Berner 18 de outubro de 2016 at 7:05 PM

    Mas vc escreve muito bem mesmo hein!!!
    Arrasou!

    Bjus!!
    http://www.unhasetudo.com.br

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  • Responder Janaine Bagatini 18 de outubro de 2016 at 7:25 PM

    Eu sei que sou branca, razoávelmente magra e de cabelo liso, mas ja tive o cabelo de diversas cores e é muito CHATO, porque sempre tem aquela pessoa pra falar coisas como “mas tua cor natural é tão bonita” “só estraga o cabelo” ” jesus não te fez assim”. E essas pessoas sempre têm algum tingimento mais “natural” no cabelo, seja loiro, castanho ou o que for.

    Amei o post Clara!
    Bjs
    Janainebagatini.com

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  • Responder Hellê 18 de outubro de 2016 at 10:04 PM

    Maravilhoso, uma reflexão necessária, e sim, acho que ambos estão diretamente ligados, ele é uma expressão de quem somos, pode representar um povo, uma cultura, ou nossa liberdade individual, e poder fazer com ele o que bem entendermos sem ser julgadas significa muito e importa muito, parabéns pelo texto!

    ;**

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  • Responder Ana Mastrochirico 22 de outubro de 2016 at 12:13 AM

    Eu to adorando ver os cabelos como protagonistas sabia!? Pelo empoderamento, pela atitude, pela resistência, essa sua observação é muito importante, pra gente ser livre pra ter o cabelo que quiser. E é isso que tenho visto, LIBERDADE, pra ter os cachos ou cortar curtinho, nunca tinha me sentido tão a vontade para me tornar amiga da tesoura, e isso depois de uns bons 7 anos de cabelos beeem longos. A leveza de ter o cabelo que eu quiser influência muito nas mensagem que desejo transmitir diariamente, e acho que ouras mulheres estão sentindo isso tbm.

    na próxima quero sair na foto tbm!!!

    beijo

    http://www.garimpomag.com.br

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  • Responder Samira Oliveira 25 de outubro de 2016 at 7:50 PM

    Eu acredito que tem uma intima ligação entre cabelo e empoderamento.
    Quando eu era criança eu tinha um cabelo muito, mas muito muito cacheado, que era quase afro. E minha mãe odiava ele, falava que parecia bom bril e comprava dezenas de produtos e passava horas escovando e tirando tufos de cabelos até eles estarem apresentáveis para ela – quebrados mas mais acentados. Minha vó pelo menos nunca reclamou deles e depois de tudo deixou meus cabelos serem como são, ai veio eu querer alisar tudo e depois do alisamento ele ficou só ondulado meio crespo- com muitos frizz, mas eu gosto dele heheh. Seu post ficou bem bacana, eu quero cortar o meu curto mas ja ouvi de muitas tias que eu vou parecer “sapatão” eu respondo que seria uma ótima ideia então hahhha.
    Adorei as fotos, o Bruno arrasa! <3 E o depoimento delas foi super legal!

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  • Responder Kipling, high school e revival dos anos 90! - Blog DeClara 31 de outubro de 2016 at 6:21 PM

    […] à moda que se adequa ao estilo de vida, tem tudo a ver com o que estamos vivendo nesses tempos de beleza natural e consumo […]

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  • Responder Sabrina Eloize 30 de novembro de 2016 at 6:05 PM

    “Assim, minha transição foi de algo puramente estético para uma autoafirmação em uma sociedade que sequer suporta minha estética.”
    Não sou muito ligada em questão de estética, simplesmente por gostar mais de outras coisas – no entanto, quando tomei como decisão aceitar meu cabelo cacheado, aceitar e estar feliz sim por ser gorda, e não haver nenhum problema em estar fora de tais padrões (aliás, há uma felicidade imensa em poder enxergar além), muitos ao meu redor continuam com a noção de quê é errado, mesmo eu estando feliz e saudável assim. Sabe, nós, talvez por estarmos sempre estudando e fazendo parte de comunidades que tratem de assuntos do tipo e procuram ajudar corretamente, temos a pequena ideia de que a maioria já tem a mesma noção… Mas não! Existem propagandas por ali e por aqui empoderando de um jeito e outro, mas ainda temos que viver e conversar siiiimmmm sobre todos esses padrões que forçam uma beleza só exterior! Vamos à luta sempre.
    Estou apaixonada pelo seu blog, é tão lindo, tão detalhado e tão rico de informações! Obrigado.

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